Tem uma palavra que carrega peso na vida da maioria das minhas clientes: responsabilidade.
Não é discurso. É número.
Segundo o estudo de Empreendedorismo Feminino do SEBRAE, com base na PNAD Contínua do IBGE, 52,3% das mulheres donas de negócio no Brasil são chefes de domicílio — ou seja, são elas que sustentam financeiramente a própria casa (4º trimestre de 2024). Em 2012, esse número era 37,3%. Em pouco mais de dez anos, a proporção praticamente se inverteu.
Isso significa uma coisa simples e pesada: para mais da metade das empreendedoras no Brasil, o negócio não é só um projeto pessoal. É o sustento de uma casa inteira.
Eu vejo isso toda semana na minha rotina de orientação.
Mulheres que abriram negócio achando que estavam construindo liberdade — e descobriram que estavam carregando duas responsabilidades ao mesmo tempo: ser dona do negócio e ser chefe da casa.
Não tem rede de segurança. Não tem “se não der certo esse mês, alguém cobre”.
E é exatamente esse peso que costuma travar a clareza na hora de decidir.
Porque quando o orçamento de casa depende do resultado do mês, toda decisão fica carregada de medo. Aceitar cliente errado parece mais seguro do que recusar. Manter o preço baixo parece mais seguro do que reajustar. Trabalhar mais horas parece mais seguro do que delegar.
Só que essa “segurança” de curto prazo é exatamente o que impede o negócio de crescer no longo prazo.
Eu sempre digo a mesma coisa nas minhas orientações: decisão tomada com medo raramente é a decisão certa.
O caminho não é trabalhar mais horas pra compensar a responsabilidade. É estruturar o negócio de um jeito que ele sustente essa responsabilidade sem te consumir.
Isso significa rever preço com base no que o negócio realmente precisa gerar — não no que parece “razoável” cobrar.
Significa filtrar cliente com clareza, em vez de aceitar todo mundo por medo de não fechar o mês.
Significa tomar decisão estratégica em vez de decisão de sobrevivência, mesmo quando a pressão financeira é real.
Porque ser chefe de família não devia significar abrir mão de crescer com clareza. Devia significar, principalmente, ter um negócio estruturado o suficiente pra sustentar essa responsabilidade sem te quebrar no processo.
É exatamente esse tipo de virada que eu busco construir com cada cliente na Orientação Individual: transformar decisão de sobrevivência em decisão estratégica, mesmo quando a casa depende do resultado.
Se mais da metade das empreendedoras brasileiras carrega essa responsabilidade hoje, o mercado — e o método de quem trabalha com elas — precisa reconhecer esse peso e responder com estrutura, não com discurso motivacional vazio.
Verusca Carósio é orientadora de negócios com mais de 22 anos de experiência em comunicação e marketing, especializada em apoiar pequenas empreendedoras e profissionais liberais.
Fonte dos dados: SEBRAE — Relatório Técnico de Empreendedorismo Feminino, com base na PNAD Contínua/IBGE, 4º trimestre de 2024 (estudo anexado ao projeto).




